Na noite em que Billy Ray nasceu
(rua 28, cruzamento com a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa na loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto – tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o camião varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de póquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de ténis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
o aleluia da existência ocidental:
centenas de homens vergados
fazendo vénia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola
até ao infinito lunar
do livro Jóquei,
de Matilde Campilho
(Fonte: Spotify)
Je suis dans la chambre, je suis dans le parc, je regarde par
la fenêtre, je regarde la pluie, la neige, les branches des
arbres, les rayons de soleil, je regarde les écureuils courir
dans l’herbe, les pommes de pin qui tombent sur le sol
depuis les branches des arbres, je vais sortir, je vois
l’ombre de l’arbre qui passe par la fenêtre s’étirer sur le
mur, quelquefois un écureuil passe sur l’herbe, les
branches touchent presque la fenêtre, je regarde si je vois
un écureuil descendre de l’arbre très vite et passer au pied
des arbres dans l’herbe, le soleil est derrière le tronc noir,
les branches de l’arbre entrent dans la chambre, je vais sortir
de la chambre, aller me promener, je rencontrerai à la
buvette la jeune fille que je rencontrerai plus tard au café
de la ville, elle me dira qu’elle jouait du piano, qu’elle était
trop terrifiée pour sortir de dessous le lit, qu’elle restait
étendue sous le lit des jours, qu’elle ne pouvait plus bouger,
qu’elle va mieux, que je rencontrerai plus tard au café
de la ville sans savoir son nom, elle me dira son prénom, je
lui dirai mon prénom, je lui dirai que j’écris, elle est fragile,
elle parle doucement, elle me demandera si mes agitations
durent longtemps, je lui dirai que je ne peux pas les
arrêter, puis je ne me rappellerai plus son prénom, je
l’aurai oublié, mais je n’aurai pas oublié son visage et
lorsque je la verrai je lui dirai eh, bonjour, viens t’asseoir
avec nous, je ne me rappellerai ni son nom, ni depuis
quand je la connais, ni l’endroit où nous nous sommes
rencontrés la première fois, je vais sortir, aller à la buvette,
m’asseoir à une table, c’est à une table qu’elle viendra
s’asseoir et me parler, elle est fragile, elle est vive.
“Anachronisme”
Christophe Tarkos
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua
Je suis à la recherche
d’un homme que je ne connais pas,
qui jamais ne fut tant moi-même
que depuis que je le cherche.
A-t-il mes yeux, mes mains
et toutes ces pensées pareilles
aux épaves de ce temps ?
Saison des mille naufrages,
la mer cesse d’être la mer
devenue l’eau glacée des tombes.
Mais, plus loin, qui sait plus loin ?
Une fillette chante à reculons
et règne la nuit sur les arbres,
bergère au milieu des moutons.
Arrachez la soif au grain de sel
qu’aucune boisson ne désaltère.
Avec les pierres, un monde se ronge
d’être, comme moi, de nulle part.
“Chanson de l’étranger”
Edmond Jabés
Je suis l’étranger
Et ça peut se voir
Je ne parle pas
Tout à fait comme toi
Je viens de la plate-bande
Ou les aubergines
Se violacent dès l’aube
Elles sont comme moi
Ele leu, uma vez, que um sábio, no deserto, havia conseguido conversar com a areia.
Impressionado por essa proeza, ele decidiu, por sua vez, dialogar com a fonte.
Ele ignorava que, no silêncio, exclusiva é nossa voz; pois o que, em si, é lamento ou canto é, já, palavra distanciada.
A morte fala. A vida é falada.
(… porque tu estás ainda lá onde eu parecia não estar mais).
“Falarei sem me interromper para aquele que não diz mais nada, não para incitá-lo a me imitar, mas a fim de confortá-lo em seu mutismo. Tão eloqüente é seu silêncio”, havia ele notado.
E mais longe: “É sempre o silêncio que fala àquele que lhe sacrifica suas palavras”.
De O livro do diálogo
Edmond Jabès
[trad. Eclair Antonio Almeida Filho]
A côté de la lumière qui monte dans mes yeux sur un tour de montagnes russes
Ao lado da luz subindo nos meus olhos em um passeio de montanha-russa
Estou no quarto, estou no parque, olho através da janela, vejo a chuva, a neve, os galhos das árvores, os raios do sol, olho os esquilos correndo pela grama, as pinhas dos pinheiros que despencam no chão caindo dos galhos das árvores, eu vou sair, vejo a sombra da árvore que entra pela janela espreguiçando-se na parede, às vezes, um esquilo passa pela grama, os galhos quase tocam a janela, eu olho quando vejo um esquilo descendo rapidinho da árvore e passa entre os pés das árvores na grama, o sol atrás de um tronco escuro, os galhos da árvore entram dentro do quarto, vou sair do quarto, vou passear um pouco, encontrarei no bar a garota que encontrarei mais tarde num café da cidade, ela me dirá que ela tocava piano, que ela tinha terror de sair das cobertas, que ela passava dias inteiros deitada na cama, que ela não podia nem se mexer, que ela está melhor, que encontrarei mais tarde no café da cidade sem saber seu sobrenome, ela me dirá seu nome, eu lhe direi meu nome, eu lhe direi que eu escrevo, ela é frágil, ela tem a voz doce, ela me perguntará se minhas agitações duram muito tempo, eu lhe direi que eu não posso contê-las, depois não me lembrarei mais do seu sobrenome, eu a terei esquecido, mas não terei esquecido seu rosto e logo que a encontrar eu lhe direi oi, bom dia, venha se sentar aqui com a gente, eu não me lembrarei nem do seu nome, nem de desde quando eu a conheço, nem onde foi que nós nos encontramos pela primeira vez, eu vou sair, ir até o bar, sentar-me numa mesa, será na mesa que ela virá se sentar e me perguntar, ela é frágil, ela está viva.
Do livro “Anachronisme”
C. Tarkos
[trad. Heitor Ferraz]
venus in virgo
there’s nothing wrong with me that I can see
(Fonte: Spotify)
Gásto os dias a experimentar logares e posições para as palavras. É uma paciencia de que eu gósto. É o meu gôsto.
Tudo se passa aqui pelas palavras – todos os gôstos.
Collei algumas d'estas paciencias com palavras. São estas as palavras que trago aqui. Ainda não estão promptas – são pedaços de coisas, aqui e alli, como um rapaz novo, como uma rapariga nova. Como os cavallos quando ainda são petizes – vê-se já que se trata de um cavallo, mas tambem se vê que ainda não está concluido. As pernas cresceram mais depressa do que a espinha. A cabeça muito grande é que já está do tamanho em que ha-de ficar. Tudo se aguenta de pé provisoriamente – ainda não está prompto, vê-se perfeitamente que ainda não é tudo.
Agarrei uma mancheia de palavras e espalhei-as em cima da meza. Ficaram n'esta posição:
A invenção do dia claro (1921)
Almada Negreiros